Pagar para pedir demissão? Por que jovens japoneses contratam empresas para evitar o confronto com o chefe

  • 20/09/2026
(Foto: Reprodução)
Computador, digitação, laptop, notebook, trabalho, internet CDC/ Amanda Mills Para Y.M., um japonês de pouco mais de 20 anos, o primeiro emprego após a universidade, numa empresa de vendas do setor imobiliário, se transformou em um teste diário de resistência. Entre os colegas, era ele quem costumava ser alvo de gritos e reprimendas. Segundo relato publicado no site da consultoria trabalhista e de recursos humanos Leadbrain, sediada em Tóquio, Y.M. procurava uma forma discreta de deixar o emprego. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Preocupado com a opinião dos colegas, relutante em preocupar os pais e decidido a evitar conflitos no ambiente de trabalho, ele recorreu ao celular para buscar uma alternativa: um serviço terceirizado de demissão, que comunica o desligamento ao empregador em nome do funcionário. No Japão, desaparecer do trabalho sem aviso prévio é conhecido como bakkure, prática que guarda certa semelhança com o chamado "ghosting" nos relacionamentos. Agora no g1 Em muitos países, abandonar um emprego sem comunicação é visto como uma atitude irresponsável. Dentro da lógica das interações sociais japonesas, porém, desaparecer pode ser uma forma de evitar confrontos e preservar a harmonia, ao menos na aparência. Pagar para ir embora A procura por empresas que intermedeiam pedidos de demissão está em alta. A Albatross, uma das principais companhias do setor, auxilia cerca de 450 pessoas por mês a deixar seus empregos sem contato direto com os superiores. O serviço custa aproximadamente 120 euros (cerca de R$ 713) para trabalhadores em tempo integral. A maioria dos clientes é formada por jovens profissionais dos setores de serviços e manufatura. O processo pode ser concluído em até 15 minutos. "As razões que levam as pessoas a pedir que nos encarreguemos da demissão vão de violência física a assédio sexual", afirmou Yuka Hamada, diretora-executiva da Albatross. "São pessoas vulneráveis e que não se sentem capazes de pedir demissão por conta própria." Uma pesquisa da consultoria Shikigaku com trabalhadores japoneses de 20 a 49 anos mostrou que cerca de um terço dos entrevistados relatou ter sofrido algum tipo de assédio no ambiente de trabalho. Harmonia acima de tudo A cultura corporativa tradicional japonesa ganhou forma durante o período de crescimento econômico do pós-guerra e está fortemente associada ao conceito de emprego vitalício. Nesse contexto, a lealdade à empresa é tratada como uma virtude central, e muitos gestores interpretam pedidos de demissão como uma afronta pessoal. Por isso, diversos jovens trabalhadores hesitam em comunicar sua saída diretamente. "Anunciar a intenção de pedir demissão pode parecer não apenas o encerramento de um contrato, mas também uma forma de decepcionar pessoas ou trair expectativas que se buscou atender durante anos", afirmou Hiroki Nakamori, professor associado da Escola de Pós-Graduação em Estudos de Design Social da Universidade Rikkyo. Segundo Hiroshi Ono, professor de gestão de recursos humanos da Escola de Negócios da Universidade Hitotsubashi, o Japão é uma sociedade pouco inclinada ao confronto, onde se espera que os indivíduos se adaptem aos compromissos assumidos com a empresa e sua cultura organizacional. "Quem perturba a harmonia não costuma ser bem-visto. Por isso, alguém que está saindo pode sentir que o melhor é simplesmente desaparecer sem causar alarde", disse Ono. "Agir coletivamente e em harmonia é considerado um sinal de força", acrescentou. Essa tendência a evitar conflitos tem raízes profundas na sociedade japonesa. A Constituição dos Dezessete Artigos, compilada no início do século 7 e considerada um importante marco do pensamento político do Japão antigo, já defendia que a harmonia deveria ser priorizada e as disputas evitadas. Desaparecer sem deixar de ser educado Mas até mesmo abandonar um emprego pode ser feito de maneira considerada cortês. "Os clientes podem não se despedir nem agradecer diretamente à empresa. Nesses casos, a agência pode transmitir essas mensagens em seu nome", afirmou Hamada. Trata-se de um dos paradoxos da cultura corporativa japonesa. Mesmo ao optar por desaparecer, muitos funcionários sentem a obrigação de seguir o princípio do meiwaku, que valoriza a redução de transtornos para os outros e a preservação da ordem coletiva. Essa preocupação também se estende aos pertences deixados no local de trabalho. "Mesmo quando o cliente pretende desaparecer completamente, orientamos que esvazie sua mesa antes de sair", disse Hamada.

FONTE: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/09/20/pagar-para-pedir-demissao-por-que-jovens-japoneses-contratam-empresas-para-evitar-o-confronto-com-o-chefe.ghtml


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